quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Perdas...

Às vezes a vida nos dá escolha, às vezes não. Com a escolha do tema desta postagem foi assim. Não pude fugir do lugar onde meus pensamentos residem essa semana. Perdi uma paciente. Uma moça de 29 anos. Faleceu de forma lenta, sem tréguas, sem folgas. Estava doente há dois anos. Meu objetivo em sua terapia era ajudá-la a não desistir. Não desistir de fazer planos, de ter sonhos, enfim, de viver. Ela não desistiu. Viveu. Todos os seus segundos, mesmo com gosto de fim.
Eu sabia, desde sempre, que a vida para ela não seria longa, sabia, porém, que poderia ser bela, pois o que determina a felicidade não é o tempo que estamos esperando por ela e sim o quanto estamos com sede de bebê-la, num gole só, já reparou como a felicidade cabe dentro de poucos segundos?
Enfim, perdi alguém. Mergulhei nessa perda. E esse mergulho não aconteceu essa semana, ele aconteceu no momento em que ela me olhou fundo nos olhos pela primeira vez. Nunca vou me esquecer daquele olhar.
Quem nunca passou por isso? Muitos podem também estar vivendo esse momento, por isso, achei interessante dividir isso com vocês. O que perdemos ao perder alguém? Essa é a grande questão. Ao enfrentar essa perda me vi diferente. Quando perdemos alguém, não perdemos só o convívio e as coisas que aquela pessoa nos proporciona, perdemos a pessoa que somos com ela, nessa relação, perdemos a pessoa que ela nos desperta ser, perdemos então uma possibilidade de ser no mundo.
Talvez então o luto seja não só pelo outro, mas também pelo pedaço de nos mesmos que o outro leva... Só somos quem somos frente ao outro. O que cada pessoa desperta em nós é único, portanto, somos muitos, um com cada um... Seja essa talvez a essência da dor da perda. Sofrer esse luto duplo.
Essa paciente me ensinou o valor da vida, o valor de aproveitar cada minuto, cada pessoa, cada relação. Perdi a convivência dela, perdi quem eu era com ela, ganhei essa relação, aprendi muito, fica agora a saudade e a vontade de ser de novo um novo eu.


Aline Campregher Aleixo
Psicóloga

11 comentários:

Cinthia disse...

Olá Aline!
Tenho lido sempre os seus textos... mas esse achei muito marcante. Ao ler sentimos a dor de uma perda, sem ao menos ter nunca perdido.
Parabéns!!

Beijos
Cinthia Moretti

Aline Campregher Aleixo disse...

Olá Cinthia!
Obrigada pela presença constante aqui no blog! Ele é um espaço de troca, muito bom ter deixado sua emoção aqui...
beijos
Aline

Anônimo disse...

Aline
Adorei o que vc escreveu... vc mostrou um olhar muito sensível e interessante em relação a vida e suas perdas.
Parabéns.
Beijão.

Unknown disse...

Oi, Aline!
Como sempre, seus textos são ótimos! Tenho acompanhado todos! Senti a sua perda mesmo sem nunca ter conhecido essa paciente, sem nunca ter vivido o que você vivenciou com ela. Parabéns pelas lindas palavras, tenho certeza que ela ficaria emocionada se lesse!
Beijos
Amanda Wechsler

Anônimo disse...

OLA ALINE
DEPENDENDO DE COMO TRABALHAMOS MOSSAS PERDAS ELAS PODEM SE TRANSFORMAR EM GANHOS, E VC FOI MUITO FELIZ EM TRASMITIR ISSO...
BJS TARCISIO

Humanitas disse...

Oi ana,
Obrigada! É muito legal saber que achou interessante, cada um com seu olhar e a gente tentanto compartilhar esses olhares aqui, legal...
gde beijo

Humanitas disse...

Oi Amanda!
Que bom que pode mergulhar comigo nessa experiência, afinal, todos nós perdemos algo, todos dias em nossas vidas, espero que esse texto, ao menos, nos faça refletir sobre isso!
Fico muito feliz em te ver aqui!
gde beijo

Humanitas disse...

Oi Tarcísio!
Que bom que você extraiu do texto essa visão...ganhos...sempre!
beijos
Aline
Obrigada por estar sempre aqui!

Dekinha disse...

Oi Aline! Obrigada por compartilhar conosco essa experiência tão pessoal e delicada.Sua visão madura sobre a morte me fez refletir como o luto é um assunto profundo que às vezes remete-nos a nossa própria impotência frente a vida. Sofremos porque perdemos uma pessoa especial, uma relação única, como também sofremos (inconsciente,acredito)com a "perda da ilusão" de que somos donos de nosso próprio destino.Parabéns pela reflexão e sensibilidade.Um grande abraço, Hildesca.

Unknown disse...

Olá Aline
Esse fato espinhoso da perda é um assunto evitado até o último momento.
A dúvida que tenho refere-se à resignação do paciente. Até onde devemos insistir para que essa pessoa lute pela vida? Qual é o ponto em que as pessoas em volta devem aceitar essa "vontade" do paciente?
Grato

Marcelo Bastos disse...

Achei perfeito o texto. Nunca tinha pensado dessa maneira sobre a perda de uma pessoa querida. Quando elas se vão, um pouco de nossos gestos de carinho, dedicação, esperança e os mais nobres dos sentimentos também se vão.

Parabéns!!!

Abs

Marcelo